Vestibular UVA2016




Ser jovem no Brasil

Os problemas de segurança pública têm relação com os fatores e mudanças estruturais complexos que ocorreram no médio e no longo prazos na sociedade brasileira.

Postado em 19/03/2011 | 0 Comentário(s) | 5960 Acessos

Os jovens brasileiros estão morrendo cedo demais - e de maneira violenta. Pesquisas divulgadas nos últimos meses demonstram que a proporção de mortes por homicídio e acidente de trânsito, as causas externas, é altíssima entre os jovens, uma das maiores da América Latina. Os índices de violência, de modo geral, são elevados em todo continente - quatro vezes maior do que a média mundial. Pior: as maiores vítimas de morte violenta são os jovens com idade entre 15 e 24 anos. No Brasil, a porcentagem de mortes por assassinato nessa faixa etária é 170% maior do que a de qualquer outra faixa etária. A probabilidade de um jovem brasileiro ser vítima de homicídio é 30 vezes maior que a de um jovem europeu e 70 vezes maior que a de um morador da Inglaterra, da Áustria ou do Japão.

O Brasil tem a quinta maior taxa de homicídio juvenil entre 83 países listados no Mapa da Violência: os Jovens da América Latina. Os outros quatro primeiros lugares nesse ranking são ocupados por El Salvador, Colômbia, Venezuela e Guatemala - nações com problemas estruturais bem mais sérios do que os nossos. A pesquisa foi elabora pela Rede de Informação Tecnológida Latino-Americana (Ritla), em parceria com o Ministério da Justiça e o Instituto Sangari. Para os especialistas, são vários os fatores que contribuem para esse triste recorde. Em primeiro lugar, é preciso considerar que a violência no Brasil é preocupante independentemente da idade das vítimas. Em três regiões do país - Norte, Centro-Oeste e Nordeste -, a violência constitui a segunda maior causa de morte. No Sudeste e no Sul, ocupa o terceiro lugar. O maior risco é dos homens (adolescentes e adultos jovens), negros e residentes em grandes centros urbanos. As pesquisas mostram que o risco de um homem morrer assassinado é 40% maior que o de uma mulher.

Para a Organização Panamericana de Saúde, a proporção "normal" da violência se situa entre zero e cinco assassinatos para cada 100 mil habitantes. A partir de dez mortes, já se acende o elerta vermelho. Quando um país como o Brasil alcança uma taxa de homicídios na população geral de 25,2 mortes a cada 100 mil habitantes, no geral, e 51,6 a cada 100 mil, entre os jovens, não há como deixar de reconhecer a extrema gravidade da situação.

Jovens se manifestam contra a violência

Desigualdade Social

Os problemas de segurança pública têm a ver com a profunda desigualdade existente na sociedade brasileira, de acordo com o diretor da pesquisa sobre a violência, Júlio Jacobo Waiselfisz, coordenador do Mapa da Violência. No relatório Waiselfisz afirma que " mais do que pobreza absoluta ou generalizada, é a pobreza dentro da riqueza, são os contrastes entre ambas" que determinam os níveis de homicídio de um país e a participação dos jovens nessa equação. Ou seja, os problemas de segurança pública têm relação com os fatores e mudanças estruturais complexos que ocorreram no médio e no longo prazos na sociedade brasileira e devem ser levados em consideração na hora de estabelecer os programas destinadosa combater a violência. Entre eles, falta de moradia, crescimento de favelas, precariedade dos serviços, somados à violência doméstica, frequentemente associada ao consumo de álcool e drogas e à degradação familiar.

Nas últimas quatro décadas, independentemente dos graves problemas de planejamento urbano, as cidades proporcionam a um número crescente de jovens a terem acesso à educação primária. O Índice de Desenvolvimento Juvenil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que focaliza a situação social e econômica dos jovens do Brasil, demonstra uma queda nos índices de analfabetismo e uma melhora na cobertura e no fluxo de ensino no país. Isso significa que mais jovens estão matriculados nas escolas e permanecem nos bancos escolares. Em 2008, a taxa de analfabetismo entre jovens era de 2,4%, bem inferior ao índice registrado em 1993, de 8,2%. Essa foi a boa notícia. A má é que, segundo o mesmo estudo, a qualidade do ensino ainda deixa muito a desejar. Apesar da quase erradicação do analfabetismo, 7 milhões de jovens ainda estão fora da escola.

A exclusão social

Em consequência, a melhoria na educação não se traduz em maiores oportunidades de inserção no mercado de trabalho ou de condições de vida. Um contingente significativo de jovens, geralmente pobres e moradores das periferias das grandes cidades, integra-se apenas parcialmente à sociedade. Estão longe de conseguir condições de vida adequadas e o aumento de renda, embora tenham crescido expostos às mesmas tentações da cultura de massa e imposições do cosumo que outros jovens que se encontram no extremo oposto da pirâmide social. O resultado é uma combinação perversa: mais expectativas aliadas a menores condições de alcançar os objetivos constituem o pano de fundo da decepção do jovem. A válvula de escape para essa frustração é facilmente manipulada em direção à marginalidade e ao crime.

Todos esses fatores montam, também, o cenário que facilitou a estruturação do tráfico de drogas em áreas miseráveis das metrópoles e das cidades de médio porte. Jovens que não conseguem espaço no mercado formal são aliciados pelos que comandam o tráfico. A possibilidade de ter um rendimento maior que o obtido com um trabalho formal funciona como um estímulo à entrada no mundo do crime. Frequentemente, a atividade é curta, interrompida pala morte ou pela prisão. O tráfico de drogas tem outro aspecto bastante difícil: a corrupção de parte dos policiais, que amplia a impunidade em todos os níveis.

	A violência leva ao medo

Mocinhos e Bandidos

Ainda de acordo com os especialistas, independentemente da resolução dos problemas estruturais da sociedade, a diminuição do número de mortes provocadas pela violência no Brasil passa por uma rediscussão do atual modelo de polícia, que deveria prever investimentos na seleção e na formamação dos profissionais, além do aprimoramente dos mecanismos jurídicos de controle e punição de policiais violentos e corruptos. Esses especialistas utilizam para isso o exemplo dos Estados Unidos, que registram nos últimos anos recuo significativo nos índices de homicídio e de outros crimes. A queda é maior em Nova York, cujas autoridades concentram grande atenção na reforma da polícia e nas políticas de segurança pública, depois de um período, nas décadas de 1970 e 1980, em que o trabalho da corporação esteve completamente desacreditado.

No Brasil, o problema de segurança traduz-se, de um lado, no crime organizado associado ao tráfico de drogas, fortemente armado e com muito poder sobre as comunidades nas quais atua; de outro, na polícia, considerada uma das mais violentas do mundo, em razão do elevado número de mortes durante suas ações e relatos constantes de abuso contra a população. O Relatório da Anistia Internacional, divulgada em 2008, mostra que moradores das comunidades marginalizadas vivem "em meio a níveis extremamente elevados de violência", encurralados por gangues de criminosos e sendo vítimas de métodos violentos e discriminatórios utilizados pela polícia.

A participação de militares, que estariam no local para ajudar na reforma de casas da comunidade, demonstra a generalização da violência. Outra triste prova dessa banalização está nos grupos paramilitares organizados geralmente em favelas, que cobram "mensalidades" de moradores das comunidades em troca de proteção. Uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) promovida pala Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro constata a participação de políticos, bombeiros, policiais, militares e agentes penitenciários nesses bandos armados, que dominam mais de 170 regiões da capital fluminense. Uma dessas milícias, que atua na Zona Oeste do Rio , tortura uma equipe de jornalistas que fazia reportagem sobre o assunto,em uma favela local.

Outro fator de estímulo à violência é a facilidade com que a população obtém armas de fogo no Brasil. O Estatuto do Desarmamento, que entrou em vigor em 2003, endureceu a legislação sobre o comércio, o porte e o uso de armas e munição.

Em 2003, o Brasil ocupava a segunda posição entre as nações latino-americanas com o maior índice de mortes violentas, sendo superado apenas pela Colômbia - que vive em clima de guerra civil. Para os pesquisadores do Mapa da Violência, a situação no país começou a mudar naquele ano justamente por causa da campanha do desarmamento, definida como bem-sucedida. Eles citam também a Lei Seca, que obriga o fechamento dos bares das 23 horas às 6 horas em diversos municípios.

Até 30% dos casos de homicídio estão ligados ao excessivo consumo de álcool, que age como um liberador da inibição, reduzindo as barreiras e repressões da cultura internalizadas no indivíduo e estimulando as manifestações de violência. O álcool também está ligado a uma das maiores causas de morte de jovens no Brasil - os acidentes de trânsito. Cerca de 23,3 de cada 100 mil jovens brasileiros morrem na rodovias e avenidas, segundo o Mapa da Violência, põe o Brasil como recordista na América Latina.

Compreender a situação de violência na sociedade e conhecer suas causas pode ser considerado apenas um primeiro passo. O importante, em seguida, é o debate das medidas e iniciativas que possam reduzi-la. É uma questão que interessa a todos, desde o âmbito individual e familiar, até as esferas mais amplas, da comunidade e das autoridades públicas.

	Jovem enfrentando a polícia

Fonte:


Atualidades Vestibular 2009


Deixe um comentário