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Crise na Irlanda

À medida que a economia se retrai, cresce o desemprego e aumentam os temores de que o país esteja à beira de uma volta à recessão.

Postado em 28/12/2010 | 0 Comentário(s) | 3660 Acessos

A situação financeira da Irlanda está no topo da agenda de um encontro entre autoridades da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre temores de que uma crise na economia irlandesa possa desencadear um contágio no resto do continente, o governo tem sido pressionado a aceitar ajuda do bloco comum. Leia a seguir as principais questões envolvendo a crise financeira na república.

Qual é em síntese o problema com a economia da Irlanda?

Apelidada de "tigre celta" por causa do seu elevado ritmo de crescimento econômico, a Irlanda foi do boom ao desastre financeiro em um espaço de apenas três anos.

Muito da expansão do período pode ser atribuída à expansão do mercado imobiliário, que desde 2008 se retraiu dramaticamente.

O preço dos imóveis caiu entre 50% e 60% e os empréstimos de risco – sobretudo na forma de crédito para as construtoras – se acumularam no portfólio dos principais bancos do país.

Só para ajudar essas instituições foram necessários recursos de emergência da ordem de 45 bilhões de euros (mais de R$ 100 bilhões), o que deixou um déficit no orçamento do governo irlandês equivalente a 32% do PIB neste ano.

As finanças do país também estão sendo afetadas pela queda na arrecadação de impostos. A diferença entre o que o governo gasta em serviços públicos e o que recebe em impostos e taxas atinge o insustentável patamar de 12% do PIB.

À medida que a economia se retrai, cresce o desemprego e aumentam os temores de que o país esteja à beira de uma volta à recessão.

Crise na Irlanda

Por que a crise irlandesa preocupa outros países?

A situação financeira da Irlanda preocupa especialmente aos países financeiramente menos sólidos da zona do euro, como Espanha e Portugal, que também estão com as finanças apertadas.

O temor é que esses países não sejam capazes de pagar os seus credores, que por sua vez tendem a restringir os empréstimos.

O maior impacto dessa desconfiança é a elevação dos custos de empréstimos no mercado internacional.

Por ora, esta não é uma preocupação da Irlanda, que se diz plenamente capacitada a honrar seus pagamentos até pelo menos meados do ano que vem.

Entretanto, outros países têm recorrido ao mercado para levantar recursos e assim são afetados pelas incertezas que rondam as contas públicas irlandesas.

Se recursos dessas instituições forem usados, a Grã-Bretanha pagará uma parte da conta.

Por outro lado, se a economia irlandesa colapsar, as empresas britânicas perderão negócios de um cliente que compra delas mais mercadorias que Brasil, Rússia, Índia e China juntos.

A Irlanda insiste em que não precisa de ajuda. É verdade?

É verdade que o governo acredita ser capaz de honrar todos os seus compromissos até meados do ano que vem sem a necessidade de ir ao mercado para levantar recursos.

Além disso, nas ruas é comum perceber de muitos irlandeses uma certa relutância em aceitar o pacote da ajuda da UE.

A república se orgulha de sua solvência e de sua independência financeira, e uma ajuda europeia seria vista como sinal de uma humilhante dependência em relação ao bloco.

O ministro irlandês das Empresas, Batt O’Keeffe, sintetizou este sentimento ao afirmar que "a soberania do nosso país foi conquistada a muito custo e o governo não abrirá mão dela em favor de ninguém".

Brian Lenihan, Ministro das Finanças

A Irlanda teme que, junto com a ajuda da UE, venham condições como a elevação de seu imposto sobre pessoa jurídica que, em 12,5%, é um dos principais instrumentos para atrair investimentos externos.

Por outro lado, uma grande preocupação são os bancos privados. Como vários foram parcialmente nacionalizados, a dívida que era das instituições também passou a ser assumida pelo governo.

Estes bancos estão tendo dificuldade para levantar empréstimos no mercado e dependem do suporte do Banco Central Europeu.

Uma estimativa do banco britânico Barclays Capital indica que mais de 10% de todos os empréstimos e financiamentos feitos pelos bancos irlandeses – em outras palavras, os seus ativos – estão sendo financiados com recursos do BCE.

Há indícios de que o BCE pretende convencer a Irlanda a aceitar a ajuda de emergência, que poderia então ser investida nos bancos para blindá-los contra possíveis perdas no futuro.

	Manifestantes irlandeses enfrentam a polícia

De quanto seria a ajuda e de onde viria?

Para ser bem-sucedido, a ajuda teria de ser volumosa o suficiente para afastar os temores de contágio da economia europeia por possíveis perdas registradas no futuro pelo sistema financeiro irlandês.

Algumas estimativas indicam que o montante teria de chegar a 80 bilhões de euros (quase R$ 190 bilhões).

Há diversas possíveis fontes de financiamento, incluindo o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (EFSM, na sigla inglês), que poderia prover até 60 bilhões de euros, e o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF), constituído por 440 bilhões de euros em garantias de governos da zona do euro.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) já afirmou que poderia entrar no pacote, emprestando até 50% do total provido pela União Europeia.

"A soberania do nosso país foi conquistada a muito custo e o governo não abrirá mão dela em favor de ninguém", disse Batt O’Keeffe, ministro irlandês das Empresas.

Outras fontes de financiamento podem aparecer na medida em que os países devem tentar evitar que os recursos de fundos como o EFSM sejam esgotados em uma única operação de salvamento.

Há ainda o caso de países europeus que não fazem parte da zona do euro, como a Grã-Bretanha, que contribui para o caixa da União Europeia e do FMI.

O que o governo irlandês tem feito para melhorar o estado de sua economia?

O governo tem buscado traçar uma linha clara entre o que são os problemas de seu sistema financeiro e as preocupações envolvendo as suas próprias contas.

A administração acredita que as medidas já anunciadas e ainda por anunciar reforçarão a confiança na economia do país.

O ministro para a Europa, Dick Roche, disse à BBC que o país pretende reduzir o seu déficit orçamentário dos atuais 12% para cerca de 3% do PIB até 2014.

Entretanto, analistas têm apontado que esta meta seria difícil de cumprir ainda que o país estivesse registrando crescimento econômico rigoroso – o que não é o caso.

A Irlanda teria de convencer os investidores de que é capaz de implementar o ambicioso plano de redução de gastos e outras medidas impopulares, como a elevação de impostos.

Esse problema foi enfrentado na Espanha, cujo plano de austeridade do governo não foi percebido como crível pelos mercados.

Na Irlanda, entretanto, a sociedade poderia apoiar as medidas, na avaliação da analista para o país da consultoria IHS Global Insight, Sonia Pangusion.

FMI aprova fundo de 22,5 bi de euros para a Irlanda

O Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou a aprovação de um fundo de 22,5 bilhões de euros para apoiar o programa de ajuste econômico e estabilização financeira da Irlanda.

O Serviço Ampliado do Fundo (EFF, na sigla em inglês), de 3 anos de duração, faz parte do total dos 85 bilhões de euros que formam o pacote de ajuda internacional à Irlanda.

Em comunicado, o FMI explicou que o Conselho Executivo do organismo multilateral com sede em Washington aprovou o empréstimo anunciado semanas atrás para ajudar a Irlanda a sair de sua crise econômica.

Com este plano excepcional, o FMI espera "respaldar a Irlanda com suficientes recursos financeiros para permitir recuperar a confiança dos mercados internacionais e renovar o crescimento e a criação de emprego".

O diretor do FMI, Dominique Strauss-Kahn, qualificou de "ambicioso" o denominado Plano de Recuperação Nacional elaborado pelo Governo de Dublin, com o qual tenta fazer frente "a uma crise sem paralelo na história da nação".

"Trata-se de um programa focado nas debilidades do sistema bancário e que procura restaurar as possibilidades de crescimento, sem o qual não pode haver soluções duradouras para crise", explicou Strauss-Kahn.

O FMI aprovou o empréstimo por um mecanismo especial, que permite que o Governo da Irlanda possa dispor de maneira imediata de 5,8 bilhões de euros dos 22,5 bilhões outorgados.

Além dos fundos do FMI, o pacote internacional de ajuda à Irlanda conta também com as remessas da União Europeia de 45 bilhões de euros e se completa com 17,5 bilhões de euros procedentes das reservas internacionais da Irlanda.

O Plano de Recuperação Nacional de Dublin, de acordo com Strauss-Kahn, "conta com um programa de políticas claras e realistas que procura restaurar a saúde do sistema bancário irlandês, pôr as finanças públicas em equilíbrio e recuperar o crescimento".

O diretor do FMI destacou, além disso, que as "autoridades irlandesas desenharam o programa de maneira que o ajuste econômico e financeiro seja partilhado por todos os níveis da sociedade, com maior proteção para os grupos mais vulneráveis".

O plano de ajuste fiscal irlandês, que procura estabilizar a dívida pública, prevê uma economia de 15 bilhões de euros entre 2011 e 2014, o equivalente a 9% de seu PIB.


Fonte:


BBCBrasil

www.bbc.co.uk/portuguese/


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